AVISO
quarta-feira, novembro 12, 2008
não, obrigada. comi miojo
Mudei o toque do celular, pois aquele som agora me perturbaria sempre. Estava (não digo calmamente, pois o ônibus tardava a chegar) de pé no ponto quando ouvi (pela última vez) Un dì felice eterea ecoando dentro da minha bolsa. O número era conhecido, a voz também. Os fatos, falta-me o adjetivo preciso – são tantos, na verdade. Fechei o flip e os olhos simultaneamente, mantendo-os assim por trinta segundos. Ao abrí-los, encontrei o ônibus a me esperar. “Choro quando chegar em casa.”
Acho que lágrimas fazem bem para a pele. Nunca as enxugo, gosto de sentí-las secar – especialmente com o vento. Dentro de casa, porém, é abafado. Chovia há três dias e meus pés estavam sempre molhados, como agora a face. É o choro ou o riso que faz rugas? Não consigo lembrar; provavelmente ambos. Decido-me então pela apatia e visto-me nela em frente ao espelho. Pronto, nenhum músculo se move. Pego o telefone, largado fora do gancho, e aperto o 2 – speed dial para o disk-pizza.
- La Traviata Pizzaria, boa noite.
- Quero fazer um pedido: um ombro amigo e seis cervejas, por favor.
- Preferência pela marca?
- Tanto faz. A mais barata.
- E a pizza?
- Não, obrigada. Comi miojo.
- Só aguardar de trinta a quarenta minutos, senhora.
sábado, novembro 08, 2008
claustrofobia
Odeio ser interrompido pela realidade. Estava tão bem, sonhando e me lamentando, quando vi o quadro na parede e percebi que estava vivendo. A vida me deixa claustrofóbico, jamais me permite fugir. Até sei como, mas as regras não me permitiriam voltar. Como eu queria apenas tirar umas férias e voltar para uma vida mudada – como quando você encontra seus amigos com um novo corte de cabelo e bronzeado em março. Eu sempre continuo o mesmo, apenas com a barba por fazer e a marca da camiseta estampada pelo sol.
Férias, mesmo ainda enclausurado nessa vida, me fariam muito bem. Tive de jogar pilhas de livros e Xerox ao chão para deitar no sofá; agora estende-se um tapete de referências bibliográficas no meio da sala. Prazos, prazos, meus prazos. Eles também haviam deixado minha cabeça enquanto essa deixava-se apoiar, sem esforço. Tentei deitá-la novamente, mas não funcionou. Continuei enxergando o teto, real. As marcas de mosquitos mortos em um verão passado permaneciam. As marcas de sonhos mortos em mim ainda coçavam, mas eu não as tocara para não fazer ferida – por que fazê-lo agora?
Não, nunca pisei na Europa. Tudo porque perdi o maldito prazo. Currículo impecável, desleixo completo – uma coisa não pode compensar pela outra? Não em Amsterdam. Acho que nem aqui, pra dizer a verdade. Às vezes tenho vontade de enrolar minha orientadora e perder o prazo da dissertação, só para ver a cara de incredulidade dela. É uma cara engraçada, que já tive a oportunidade de presenciar algumas vezes. Algo como a produção instantânea de rugas no rosto que, do alto de seus 37 anos, é tão jovem. Tento não causar essa expressão muito freqüentemente, com medo de tornar as marcas permanentes. Seria uma pena.
Quis olhar no espelho, tenho uma certa síndrome de Dorian Gray. Temo que o reflexo seja meu retrato, e que a vida vá deformando-o enquanto meu corpo permanece jovem e intacto. Sempre o mesmo depois das férias, o mesmo há uns quatro anos; isso me dá arrepios. Eu fiz o bastante nesse tempo para desf
igurar-me um pouco, ao menos. O Daniel saiu do banheiro e me olhou como se visse algo de errado – ou fui eu que vi algo de errado através do reflexo nos olhos dele?Sinto-me também preso em meu corpo. Tentei levantar do sofá mas a inércia me impede, meus músculos não conseguem se contrair. Comer mais bananas – anotei em minha to-do list mental; nem sei se faria alguma diferença. Além do mais, o processo envolveria ir até o mercado, o que é difícil quando não se consegue sequer erguer-se sobre duas pernas. Rendi-me – joguei-as para o outro canto e acomodei a cabeça sobre duas almofadas. Fechei os olhos e esperei que o sono me tirasse daqui de dentro; me levasse de férias.
quarta-feira, outubro 22, 2008
Tensão superficial
Fechou a porta atrás de si e largou as chaves sobre o balcão da cozinha. Passara a semana inteira esperando ao lado do telefone, agora torcia para não ouví-lo tocar. Ele fora gentil e engraçado, mas era superficial. Ela queria alguém em quem pudesse mergulhar, afundar, deixar-se afogar. Afundou-se nos travesseiros.
Deveria ser hora de acordar, pois o sol já atravessava as cortinas e suas pálpebras. O relógio lhe dizia que estava atrasada - por que não gritara? Com o café frio do dia anterior em um copo de plástico, desceu os degraus apressada. Chegando ao hall do prédio, que não era varrido há semanas, parou por um instante. Recobrou todas as lembranças da singela despedida, ali, sobre o chão sujo, para delas despedir-se. Então seguiu, mais apressada.
Sempre achara os rostos no metrô mais profundos do que na supefície. Talvez fosse a iluminação florescente, que destaca todos os defeitos da face. Talvez fosse a mudez geral. As pessoas que falam parecem sempre fúteis, por mais que falem algo sério ou intelectual. Falar é um ato presunçoso. Os calados anônimos perdiam o encanto ao emergir das escadas da estação, discutindo freneticamente com seus celulares sob a luz do dia.
No escritório, reinava o burburinho matinal - quase um silêncio para os habituados. Caminhando pelos corredores de cabeça baixa, ela esperava que ninguém notasse sua presença. Algumas portas eram especialmente evitadas: contabilidade, marketing, e agora recursos humanos. Prometeu, mais uma vez, nunca mais sair com alguém do trabalho. Não podia mais sequer demitir-se em paz.
Segundo o calendário, fazia sete meses e treze dias desde o momento em que sentiu-se vazia. Poupou-se de contas as horas (brigara com o relógio). Fora tempo suficiente para conseguir uma promoção, mudar de apartamento e conhecer qunze caras que só a esvaziaram mais. Ou continuava tentando, ou permitia perder-se.
Deteve o olhar na janela por um instante. Haviam tirado as cortinas para lavar, portanto não era possível deixar de observar a vista. Aproximou-se lentamente e se debruçou sobre o parapeito. Seus olhos brilharam de espanto: ele estivera sempre ali. Hudson, Camila. Camila, Hudson. Não houveram palavras, nada mais foi preciso. Ela mergulhou de cabeça e deixou-se afogar.
Amarelinha
Isabela observava atentamente a televisão enquanto chupava os dedos do pé. Uma moça loira de chuquinhas pulava e cantava em um palco quadriculado. "Ela não sabe brincar de amarelinha", concluiu, perplexa.
Um flash multicolorido invadiu a tela acordando-a de seus pensamentos sobre as verdadeiras regras da brincadeira. A mesma moça agora coloria uma lua de cristal, sorria e continuava a pular. "Prefiro colorir sentada no chão", pensou. De repente Pluto e Mickey saltaram à frente do céu estrelado de giz-de-cera e convidaram Isabela para uma viagem: ela era a escolhida, mas precisava desenhar-se no destino para alcaçá-lo.
Após muitos esperneios, sua mãe deixou-a usar os lápis encantados que ficavam guardados em cima da geladeira. Estavam reservados para quando Isabela fizesse dez anos, mas esse era um caso de emergência. E assim se foram resmas e resmas de papel, as paredes de seu quarto, os guardanapos e lençóis. Ela desenhou-se no castelo da Cinderella, na montanha-russa do Pateta, na casa da Minnie Mouse. Mas nada aconteceu.
Deitada no tapete, entre os lápis espalhados, Isabela teve uma visão. Pluto, alado, cochichou em seu pequeno ouvido: "você pode pintar as paredes, mas apenas quem colore seu próprio interior chegará à Disney". Na hora, ela lembrou-se das tintas de papai guardadas na garagem. Saiu correndo de pés descalços e quase tropeçou no degrau.
Com dificuldade, arrancou a tampa de uma lata cor azul-royal. O cheiro encheu suas narinas e, sem respirar, ela tomou um grande gole. O gosto era ruim, mas o sacrifício era válido. Bebeu como se fosse nescau. Sentiu cócegas esquisitas na barriga e os pés foram deixando o chão. Tudo ficou branco. Ao longe, uma torre se erguia entre as brumas. Quando as nuvens se dissiparam, Isabela encontrou seu mundo encantado. Pluto corria em volta do castelo e Mickey acenava lá de baixo. "Vamos brincar de amarelinha?", ele gritou. E ela desceu do céu azul-royal para ensinar-lhe as regras.
segunda-feira, junho 16, 2008
free franz
1. Augusto era um menino magrela, mas de bochechas especialmente salientes.2. Franz era um peixinho dourado, que na verdade era alaranjado.
3. Não se pode dizer que Augusto e Franz fossem amigos. Augusto gostava de Franz; lhe dava comida e limpava seu aquário. Franz, no início, tinha medo de Augusto – aquele rosto redondo e fantasmagórico. Depois percebeu que o menino era inofensivo e passou a irritar-se com sua presença.
4. Augusto passava o dia na escola.
5. Franz passava o dia no aquário.
6. Enquanto Augusto corria pelo pátio ou se concentrava para aprender na sala de aula, Franz nadava de uma parede de vidro à outra. Até se cansar e flutuar bem no centro do globo d'água.
7. Franz pensava com o cérebro de alcaparra de um peixinho mas, mesmo assim, pensar sozinho 24h por dia, ao longo de vários longos dias, era muita reflexão. Mente vazia... Franz foi tomado por ideais de libertação. Passava os dias exercitando suas nadadeiras em nados circulares; gastava as noites traçando estratagemas.
8. Na manhã de sábado, o dia oficial de faxina no aquário, Augusto encontrou Franz boiando. Seus pequenos olhinhos fixavam o fundo transparente de seu pequeno lar.
9. A mãe de Augusto despejou Franz e a água na qual ele vivera sua última semana no vaso sanitário. Augusto jogou por sobre o que restara da comida de peixe, como uma homenagem. Com as mãos juntas atrás do corpo, fechou os olhos e abaixou a cabeça. Sua mãe deu a descarga.
10. Tubos, esgotos e vários ambientes desgradáveis depois, Franz descobriu-se olhando para o céu através do espelho d'água acima dele. A imagem era turva e esverdeada, como uma tela impressionista. Seu novo lar era repleto de lugares e aventuras a descobrir: garrafas naufragadas, sacos plásticos viajando na correnteza, oásis de espuma boiando por toda a parte. Franz estava livre. Estava no paraíso.
domingo, junho 15, 2008
Colchofobia II
Até que sentiu que podia compartilhar-lhe o tapete.
Sophie não dormia. Pensava em Robustus e Habilis e Erectus. Todos juntos, dormiam no chão.
Davam-lhe calafrios.
Ele acordou com Sophie tremendo e, juntos, foram dormir com Napoleão e Monet e Foucault. Porque eles pelo menos paraciam ser caras civilizados.
Colchofobia I
Cobria-a com lençol, cobertor e colcha para não ter de olhá-la nos olhos. O travesseiro, pousava sobre o tapete.
No chão gelado, sonhava com os corpos que nela deitaram. Napoleão e Monet e Foucault. Às vezes todos juntos, às vezes todos mortos. Às vezes dormiam e outras não.
Pensou em escrever, pensou em pintar. Pensou em se internar.
Mas quem haveria de ter deitado (dormido, ou não) em uma capa de manicômio?
D'Arc e Rousseau e Cartier-Bresson.
Davam-lhe calafrios.
não, entre consciência e
Arregalou os olhos. Encontrou à sua volta uma televisão, uma caixa de pizza, uma poltrona, dois copos, revistas, meias, um caça-palavras pela metade, um pedaço perdido de pizza, uma garrafa de vinho barato, três cadeiras, um violão, cinco almofadas, duas portas fechadas e uma entreaberta, uma cortina escancarada e um corpo adormecido.
Acordou. Fechou a cortina, puxou os dois braços inertes para em volta de si e os olhos se fecharam. Tudo ficou escuro.
sexta-feira, maio 16, 2008
metáfora do relacionamento
Epifania
Deixei a pasta na poltrona ao lado até que uma jovem parou ao meu lado e começou a praguejar, para si (esperando que eu ouvisse, suponho), sobre a falta de consideração das pessoas. Tive vontade de lhe perguntar quem teria consideração por mim, os dois carrinhos cheios de malas à minha frente. Coloquei o óbvio invólucro de um laptop sobre o colo, não sem hesitar. Guardei a passagem, não podia mais calcular seu peso com aquele IBM de 3kg sobre as pernas.
Não me pergunte por que eu paguei uma passagem mais cara para esperar em uma sala lotada, viajar em um vôo lotado e pegar fila no caixa da Lasselva. Carreguei uns quatro livros durante todo o meu passeio de 30 minutos pela loja, mas acabei comprando só um Toblerone que nunca vira antes. E me prometi nunca mais gastar um centavo em aeroporto algum.
Depois que sentei, porém, não podia mais sair. Aqueles dois assentos esvaziaram-se milagrosamente enquanto eu passava por eles. Já haviam destituido-me de um; do outro, jamais. A garota ao meu lado tinha fones de ouvido e cantarolava sem emitir som algum. Perguntei-me como era sua voz, que não ecoava em coro com as outras. Então lembrei-me de suas reclamações e percebi que estava romancizando o momento. Afinal de contas nada havia de romântico nele.
Voltei-me para a nuca adiante, mas não foquei o olhar na pele nua. Desfoquei o salão à minha volta e tentei pensar em nada. Sempre achei bonita essa história de meditar. Mas não sei se alguém já tentou fazê-lo em Congonhas, 23 de dezembro. O máximo de esvaziamento que atingi foi fixar a mente no apartamento vazio que me aguardava. Gabriela providenciara minha morada, eu nunca vira sequer a fachada. Talvez por isso mesmo não pudesse esquecer.
Tudo que eu queria era largar as malas sobre o colchão descoberto e empoirado, sacar o telefone e ligar para a companhia de TV a cabo. Perguntei-me se não precisava primeiro ligar para a companhia de telefonia. E, sem perceber, entendi o que fazer.
terça-feira, maio 06, 2008
Todo dia é sexta-feira santa
Seu Antônio era peixeiro e vinha todo dia comprar peixe, e todo dia ele dizia que gostaria de vender camarão, mas o pai de Mariana não gostava de crustáceos. Ele achava que não deveria comer o que os peixes comiam, porque aí os peixes não teriam o que comer e não haveria peixes para ele comer, e ele morreria de fome. O pai de Mariana acreditava em Deus porque dizia que não custa nada acreditar. Deus o tolerava. Mas o mantinha pobre, porque um pescador que fica rico não pesca nem por esporte. E a mulher de pescador que fica rico não vira madame; vira perua. Deus não dava a mínima para a mãe de Mariana, contanto que ela lavasse a louça e esfregasse bem a roupa. Caso contrário, colocava uma baita aranhas no caminho dela. Ela não ligava uma coisa à outra e de vez em quando encontrava uma caranguejeira debaixo da pia. Mariana não tinha medo de aranhas e Marinho gritava como um porco. Mas ele não sabia, porque em sua casa não havia porco nem na noite de Ano Novo. Isso não significa que o pai de Mariana gostasse de peixe. Se gostasse, não os pescava. Mas os peixes gostavam dele, se não gostassem, não se deixariam pescar. E Deus não tinha nada a ver com a história.
("estou com vontade de digitar! vamos brincar de digitar coisas aleatórias?" - alguns minutos na aula de Jornalismo Online)
sexta-feira, abril 18, 2008
da lua e de suas intenções
Mas às 4h30 da manhã ela resolveu parar. Inflou-se de luz e, redonda e austera, postou-se alguns metros acima da baía. Por cima dos telhados ostentava um ar como que de protesto. Assim ficou por uma hora, sem mover-se um só milímetro.
Então o céu começou a enrubecer. A luz amarela na sombra rosada parecia sorrir. A lua olhou em volta e viu-se desvirtuada. Desceu tão rápido quanto pôde e escondeu-se na penumbra, o orgulho ferido.
sexta-feira, abril 11, 2008
terça-feira, abril 08, 2008
Retrato
Acorda descabelada e de bom-humor, toma café-da-manhã todo dia, toca violão e não usa protetor solar. Lê, desenha, compõe, arrisca escrever (no pensamento). Ouve música e balança a cabeça, de olhos fechados. Artista, péssima dançarina, cozinheira de domingo: pano de louça preso na calça e cabelo para trás.
Suja de tinta, inclina a cabeça, seca o suor da testa com o pulso, emoldurando o olhar perplexo.
E isso tudo eu sei
só de olhar.
domingo, abril 06, 2008
do Lat. absentia; s. f., a não existência.
Ninguém viu o beijo, portanto não aconteceu. O que ninguém viu, ninguém pode provar. Assim como a ausência é deixar de existir por um momento. Ela pediu licença e por uma hora ele permaneceu recostado à coluna. Ninguém atreveu-se a lhe dirigir uma palavra, até que ela voltou e puxou-lhe pela mão.
terça-feira, março 18, 2008
passeio
fez cara feia e trouxe a bandeja de sapatos.
"quero as mary janes beringela em 37."
no caminho do depósito, tropeçou em botas de couro e derrubou todos scarpins. de joelhos no carpete, procurava formar pares.
bico redondo de verniz verde is the gentleman; chanel com renda est la mademoiselle.
gostava de bancar o cupido; calçou o casal e os levou para ver o pôr-do-sol.
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Capítulo 1 - Verde e Listras
Ouvi dizer essa semana que todo mundo começou, algum dia, a escrever um livro. O meu foi aos 15 anos; romancezinho, como haveria de ser. E se as palavras não vêm a mim aos 18, deixo escrever aqui a menina. Ainda não consigo rir desses capítulos interminados. Olho para ela com certo orgulho, ainda, de irmã mais velha. Irmãs, com algumas coisas em comum. Mas, sem dúvida, pessoas distintas.
-
Era uma noite fria. Eu descansava sobre a rede, na varanda do casebre de veraneio, observando o mar. As ondas crepitavam nas pedras, a lua minguava numa luz pálida, cegando as estrelas. Eu não ouvia nada além do som do mar e do vento que soprava até ele. Então, ao longe, n’algumas pedras, eu distingui uma silhueta confusa, recortada sobre o gelo da noite clara.
E ela se aproximava... Parecia cintilar, conforme caminhava na minha direção. A uns poucos pares de braças distante de mim, parou. Era um rapaz, e era muito alto. Meu nariz deveria estar pela altura dos seus ombros. Seu rosto estava oculto, mas eu sentia uma expressão acolhedora naquelas sombras.
É como se fosse um amigo que o destino esquecera de me apresentar. Um amigo que finalmente, a caminhar, pausadamente se aproximava.
Debruçou-se sobre mim, perto o bastante para tocar meu rosto com seus cabelos lisos, de um negro ameno. Sua mão precipitou-se às minhas faces, e as sombras que cobriam suas feições começaram a se desvanecer...
O sol bateu à minha janela com um estrépito. Abri os olhos lentamente, e com a visão ainda embaçada, vi a hora... estava atrasada! Levantei de um pulo, e me vesti tão rápido, que não tive tempo de separar duas meias da mesma cor. Tomei minha xícara de chocolate quente, mastiguei precariamente uma torrada e, deixando um beijo no rosto de minha mãe adormecida no sofá, apanhei meu casaco de lã púrpura e saltei para a porta dos fundos. Ventava muito aquela manhã. Eu sentia meus lábios racharem enquanto eu caminhava até a escola. Mas meus pensamentos não se detinham no frio, nem na fome, tampouco nas meias ímpares. Até a expectativa do início daquele novo semestre fora varrido da minha mente naquela noite, no breve espaço de um sonho. Eu sabia que não fora um sonho qualquer. Mas isso não importava. Não ter descoberto a face daquele ente desconhecido me trazia raiva do sol, que me acordara nada mais que a tempo de ir para a aula.
Me aproximando da escola, encontrei vários amigos... pessoas que durante todas as férias, que passei isolada no sítio de meus avós, me fizeram muita falta. Eu gosto do campo, mas me fazia falta companhia. Alguns rostos estranhos passaram por mim, com um olhar envergonhado. “Alunos novos... por que são sempre tão esquivos?”, disse a Patrícia, quando uma garota de origem asiática esbarrou nela, pediu desculpas num tom inaudível, e saiu com o rosto da cor do meu casaco. A Patrícia e eu éramos amigas desde a sexta série. Eu a conhecia o bastante, para saber que em situação alguma ela seria encabulada. Pelo menos assim pensava. Já eu, eu compreendia aquela garota. As mudanças eram difíceis para mim, e apesar de ter alguns bons amigos, e me dar bem com quase todos meus colegas, eu era uma menina tímida. Quase morri ao ouvir aquela voz serena sussurrar ao meu lado “Oi, Rafa!”, na escada para o segundo andar. Uma voz que eu não ouvira durante aquelas três semanas de recesso.
Naquela manhã o auditório parecia mais cheio que no início do semestre anterior. Vários alunos haviam sido transferidos para o Colégio Mariano Pereira, já que a outra escola particular da cidade falira, sem nem poder terminar o ano letivo. Eu nem tive contato com nenhum deles nesse primeiro dia, tirando a japonesinha que esbarrou na Patrícia. Fiquei entre meus amigos na tradicional reunião “pós-férias”, e depois da aula de História, com a Sra. Fernandez, passei o intervalo também ao lado deles. Mas enquanto saía da sala, eu ainda tentava entender porque um garoto de óculos olhava para meus sapatos e ria durante a apresentação da professora. Eles eram novos, e eu os achava muito bonitos. Enquanto pensava nisso, fui puxada para o pátio pela Patrícia.
“- Vocês viram quanta gente nova? Estou adorando isso...
- Você tem razão, Giovanna. Tem uma menina na minha classe de Biologia... Mais linda até mesmo que você.
- No seu lugar, eu não pararia de investir na Giovanna, não. Se você disser um ‘oi’ pra essa menina, só vai vê-la sair com o rosto da cor de um tomate, igual à que topou em mim no caminho para cá... Como são acanhadas!
- Ai, Patrícia! Elas não conhecem ninguém aqui, não é à toa que ficam um pouco tímidas. Além do mais, não tira as esperanças do rapaz! Henrique, se quiseres uma ajudinha...”
Não me lembro muito bem da conversa. Eu estava completamente absorta no capítulo nove do livro de História. Falava dos mitos que o homem tinha a respeito do mar, e que o fazia temer os oceanos. Eu não era uma aluna estudiosa aos extremos, apenas me esforçava o suficiente. Mas História sempre foi minha matéria preferida, e aquele texto era mesmo muito bem escrito. Eu li com atenção sobre cada uma das criaturas marinhas que a humanidade tanto temia, e pensei que talvez viéssemos a descobrir que as pessoas não morrem. Que a morte é apenas uma crença boba. Parece absurdo, mas para os povos medievais, absurdo seria dizer que a Terra é redonda.
“Rafaela, você estava distraída quando calçou essas meias, não?”. Só aí eu me dei conta do motivo pelo qual aquele garoto ria de mim durante a aula. Não eram os meus sapatos. Eram as meias...
“- Ah! Eu acordei tarde, e me vesti muito rápido para me importar com a cor das meias.
- Mas então foi muita sorte pegar justamente uma verde-limão, e essa listrada com ratinhos, que sua tia lhe deu, e que você tanto odeia.”
Nessa hora, voltei a pensar no sonho. Todo aquele alvoroço tinha me dispersado. Nesse momento o sino para a aula seguinte tocou, e causou alvoroço suficiente para dispersar-me novamente.
quinta-feira, dezembro 21, 2006
Múltipla Escolha
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Entro e encontro-o deitado, olhos correndo de um lado a outro de cada página. Desajeitada me aproximo e beijo sua face – sussurro.
-Vamos à praia?
Seus olhos levantam e encontram os meus, abre-se aquele sorriso infantil e ansioso.
Sua mão esquerda segura a minha mão direita. Minha mão esquerda segura sua direita. Sentimos o mundo girar em volta de nossas gargalhadas e o chão de areia molhada se aproxima.
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Entro e encontro-o deitado, olhos correndo de um lado a outro de cada página. Desajeitada me aproximo e beijo sua face – sussurro.
-Vamos à praia?
Ele me olha com desdém. Vejo seu rosto contorcer-se em um “hum” desgostoso. Posso sentir a preguiça e a desvontade espalhar-se por seus músculos enquanto desvia o olhar. Levo o dedo indicador aos lábios – “shhh” – e beijo-o novamente.
- Você quer ficar sozinho?
Seus olhos levantam e encontram os meus. Abre-se aquele sorriso infantil e carinhoso, por apenas alguns segundos.
A luz fraca, a porta fechada. Calamos nossos risos e cócegas enquanto a noite corre janela afora e nosso segredo se esconde aqui dentro.
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Entro e encontro-o deitado, olhos correndo de um lado a outro de cada página. Desajeitada me aproximo e beijo sua face – sussurro.
-Vamos à praia?
Ele me olha com desdém. Vejo seu rosto contorcer-se em um “hum” desgostoso. Posso sentir a preguiça e a desvontade espalhar-se por seus músculos enquanto desvia o olhar. Levo o dedo indicador aos lábios – “shhh” – e beijo-o novamente.
- Você quer ficar sozinho?
O olhar corre para o livro aberto, deitado de bruços sobre seu colo. Voltam a mim os seus olhos, carregados de desculpa e por favor. Tremo ligeiramente os lábios em sorriso e recebo dos seus um último beijo.
domingo, novembro 19, 2006
22:58
Ele ainda está aqui, maldito e grande inseto. Ela não mata insetos quaisquer, só mosquitos. Mas este tem alguma fixação! Voa em sua direção, e quanto mais ela mexe os braços criando turbulência para seu vôo, mais ele se aproxima. Parece querer atacá-la. Desvencilha-se.
Agora olha para a tela do computador. Baixa os olhos para a tigela de cereais que agora contem apenas poucos militros de leite. Ah não, um mosquito ali dentro.
Então pelos dois lados da tigela se aproximam, não um, mas dois insetos grandes e raivosos. Ela começa a acreditar nas histórias que inventou.
Sente novamente algo na perna, droga. Não, não foi psicológico. Ele estava ali. Balança a perna. Mesma cócega leve, no mesmíssimo lugar. Ele de novo. Passa a mão para espantá-lo. Caem no chão corpo e asas separados. Não queria matá-lo. Ui.
Suas mãos correm pelo teclado. Uma sombra passa ligeira.
22:04
Maldito bichinho. A revista que lia se transformou em arma. Tentava empurrar no ar o desgraçado janela afora. Sem sucesso. Fechava a janela. Abria a janela. Tentava ler. Coceira no nariz. Lá vem ele, de novo! Ela levanta os olhos, olha as paredes em volta. Mosquitos! dezenas deles! Ao olhar de perto, não tem certeza. Mosquitos esquisitos.
Ela não hesita: pega uma toalha da pilha de roupa para lavar e arremessa-a contra todos pequenos e repugnantes seres que invadem seu lar. Burros. Nem se mexem, esperam a morte chegar. Pá e vassourinha. Mosquito morto por todo lado. Abre a janela e joga-os do terceiro andar. É aí que vê: outras dezenas grudadas do lado de fora da janela! Fecha toda a casa.
Calor. Ela sente bichinhos subindo em suas pernas. Tem certeza que ele está ali, bem no meio da canela da perna esquerda. Fica olhando para o ponto da leve cócega: não há nada.
Mosquitos psicológicos, ótimo. Não adianta matar os de verdade.