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terça-feira, junho 09, 2009

happy times

where i've been

new hobby: drawing postcard landscapes



quarta-feira, outubro 22, 2008

Amarelinha

(em co-autoria com Maurício Tussi)

Isabela observava atentamente a televisão enquanto chupava os dedos do pé. Uma moça loira de chuquinhas pulava e cantava em um palco quadriculado. "Ela não sabe brincar de amarelinha", concluiu, perplexa.

Um flash multicolorido invadiu a tela acordando-a de seus pensamentos sobre as verdadeiras regras da brincadeira. A mesma moça agora coloria uma lua de cristal, sorria e continuava a pular. "Prefiro colorir sentada no chão", pensou. De repente Pluto e Mickey saltaram à frente do céu estrelado de giz-de-cera e convidaram Isabela para uma viagem: ela era a escolhida, mas precisava desenhar-se no destino para alcaçá-lo.

Após muitos esperneios, sua mãe deixou-a usar os lápis encantados que ficavam guardados em cima da geladeira. Estavam reservados para quando Isabela fizesse dez anos, mas esse era um caso de emergência. E assim se foram resmas e resmas de papel, as paredes de seu quarto, os guardanapos e lençóis. Ela desenhou-se no castelo da Cinderella, na montanha-russa do Pateta, na casa da Minnie Mouse. Mas nada aconteceu.

Deitada no tapete, entre os lápis espalhados, Isabela teve uma visão. Pluto, alado, cochichou em seu pequeno ouvido: "você pode pintar as paredes, mas apenas quem colore seu próprio interior chegará à Disney". Na hora, ela lembrou-se das tintas de papai guardadas na garagem. Saiu correndo de pés descalços e quase tropeçou no degrau.

Com dificuldade, arrancou a tampa de uma lata cor azul-royal. O cheiro encheu suas narinas e, sem respirar, ela tomou um grande gole. O gosto era ruim, mas o sacrifício era válido. Bebeu como se fosse nescau. Sentiu cócegas esquisitas na barriga e os pés foram deixando o chão. Tudo ficou branco. Ao longe, uma torre se erguia entre as brumas. Quando as nuvens se dissiparam, Isabela encontrou seu mundo encantado. Pluto corria em volta do castelo e Mickey acenava lá de baixo. "Vamos brincar de amarelinha?", ele gritou. E ela desceu do céu azul-royal para ensinar-lhe as regras.

segunda-feira, junho 16, 2008

free franz

1. Augusto era um menino magrela, mas de bochechas especialmente salientes.

2. Franz era um peixinho dourado, que na verdade era alaranjado.

3. Não se pode dizer que Augusto e Franz fossem amigos. Augusto gostava de Franz; lhe dava comida e limpava seu aquário. Franz, no início, tinha medo de Augusto – aquele rosto redondo e fantasmagórico. Depois percebeu que o menino era inofensivo e passou a irritar-se com sua presença.

4. Augusto passava o dia na escola.

5. Franz passava o dia no aquário.

6. Enquanto Augusto corria pelo pátio ou se concentrava para aprender na sala de aula, Franz nadava de uma parede de vidro à outra. Até se cansar e flutuar bem no centro do globo d'água.

7. Franz pensava com o cérebro de alcaparra de um peixinho mas, mesmo assim, pensar sozinho 24h por dia, ao longo de vários longos dias, era muita reflexão. Mente vazia... Franz foi tomado por ideais de libertação. Passava os dias exercitando suas nadadeiras em nados circulares; gastava as noites traçando estratagemas.

8. Na manhã de sábado, o dia oficial de faxina no aquário, Augusto encontrou Franz boiando. Seus pequenos olhinhos fixavam o fundo transparente de seu pequeno lar.

9. A mãe de Augusto despejou Franz e a água na qual ele vivera sua última semana no vaso sanitário. Augusto jogou por sobre o que restara da comida de peixe, como uma homenagem. Com as mãos juntas atrás do corpo, fechou os olhos e abaixou a cabeça. Sua mãe deu a descarga.

10. Tubos, esgotos e vários ambientes desgradáveis depois, Franz descobriu-se olhando para o céu através do espelho d'água acima dele. A imagem era turva e esverdeada, como uma tela impressionista. Seu novo lar era repleto de lugares e aventuras a descobrir: garrafas naufragadas, sacos plásticos viajando na correnteza, oásis de espuma boiando por toda a parte. Franz estava livre. Estava no paraíso.

uma memória


papel e caneta ao lado da cama



e uma música do Coldplay na cabeça

blind date

















"which one is my valentine?"