AVISO

esse blog não foi feito para você entender; sequer para você ler.
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quinta-feira, maio 15, 2008

sobre voar










(rascunhos transcritos 18/04)




Tentei recortar a silhueta da ilha no horizonte apinhado de prédios da capital paulista. As nuvens logo atravessaram o caminho antes de eu contar com precisão quantas construções daquelas caberiam na área total de Florianópolis.

Eu comprara uma revista importada e um chocolate que custara mais que o jornal - cujo caderno de cultura não é bom nas sextas-feiras. Já era 9:30 e ao lado do vôo 3212 ainda alternavam-se "estimado" e "estimated". Sentei, depois de uma breve reflexão sobre quem era o vizinho mais propício (o escolhido foi um senhor, ocupado honrando a designação "laptop"), e mergulhei na sessão de ficção da revista - emergindo ocasionalmente para ouvir os números de vôo anunciados. Afundei, porém. Somente ao ler "I glanced at my watch and couldn't believe it was only nine-tirty" dei uma olhada no meu próprio relógio e não pude acreditar que já eram 9:47. Ao lado do 3212 agora havia um sólido "última chamada". Corri e, junto de um casal, cheguei a tempo para a van dos atrasados.

O vôo estava cheio, ao contrário do que me levou do amanhacer pálido no litoral catarinense ao céu fechado de São Paulo. Depois de comprar a revista, porém antes de começar a minha agonia com o tempo, eu saíra meio metro além da porta do aeroporto para respirar o ar da cidade. Me pareceu romântico, a idéia veio com meu sentimento caro à metrópole. Ali estavam reunidos os fumantes, mas não foi essa fumaça que isnpirei. Ao voltar para o ambiente fechado em senti tola por querer encher os pulmões de tal atmosfera cinzenta.

No meio do caminho em direção a Congonhas, vi uma enorme massa de umidade sobre o Atlâtico. A princípio pensei "uma frente", mas a frente é só a frente da massa. E ali eu não sabia qual era a frente e, afinal, nem conseguia ver as costas.

A caixinha do sanduíche era xadrez. Vermelha, como o logo da companhia. No caso o logo era branco, estampado sobre o vermelho. Eram dez para as onze e eu não sabia como ia almoçar. O avião ficara tempo parado no pátio.

Quando ainda piscavam "estimado" e "estimater", considerei a possibilidade de o vôo atrasar. Imaginei-me no aeroporto de Salvador por quinze horas durante a crise aérea. Não voei na época. Na verdade, vôo pouco.

Ao longo de 17 anos (desde os meus 2), foram quatorze vôos internacionais e vinte domésticos, salvo engano, sem contar as escalas até a Cidade do Panamá e mais algumas "aulas" de pilotagem no Luscombe (teco-teco) de meu pai ("manche e pedal, manche e pedal...") entre Rio do Sul e Florianópolis. Contei enquanto comia meu lanche, incluindo no número total o vôo no qual me encontrava.

Aproximando-me de Congonhas, pensei sobre a possibilidade de explodir em algum galpão do aeroporto. Nos vôos internacionais, geralmente me imagino caindo no oceano. Não tenho medo, é só minha mania de imaginar futuros alternativos (morrer no Atlântico seria bem alternativo aos meus planos). Desde criança brigo pelo lugar à janela, adoro a sensação de decolar.

Imaginei estar em solo mineiro. Essses vôos acabam tão rápido... Então, num momento cliché (como quando fui respirar o ar paulistano), olhei para o horizonte de certa forma belo, porém o mesmo horizonte anuviado da viagem toda. O constante não me é tão caro.

Assim como me apaixonei por São Paulo em quatro dias, num dezembro passado, apaixonei-me por aeroportos e aviões em dez viagens, com direito a narração das atividades dos flaps e do recolhimento dos trens de pouso, na voz de meu pai. Adoro estar sozinha em um aeroporto. Só não tive coragem de tomar outro café (além do caro e ruim que comprei no Hercílio Luz, às 5h da manhã) por causa do preço. Comi o biscoito que ganhei no primeiro serviço de bordo.

Às vezes me incomoda que o trabalho de pouso é anunciado e o destino ainda está fora de vista (sempre está). Olha para a janela de minuto em minuto, buscando a transição da paisagem montanhosa para as ruas e prédios de BH. Bem, nunca estivera lá e não sabia se até Confins veria alguma coisa. Só sabia que uma viagem de ônibus de uma hora me aguardava, para chegar ao centro da cidade. Não terminei de ler o conto de ficção que, de alguma forma, não parecia mesmo terminar.

A asa se moveu. Não lembro mais quais são os flaps, mas acho que são eles mesmo. Mais alguns quilômetros turbulentos antecederam o pouso. O fim. Não foi tão bom quanto o do primeiro piloto. E o aeroporto realmente fica nos Confins, só vi árvores durante o breve rasante rumo à pista. Pelo canto da janela pensei ter visto, no horizonte, os prédios horizontinos.

Mais alguns minutos de aeroporto e me renderia ao transporte terrestre. Pelo menos ainda havia a volta (com mais dois vôos para a conta).

sábado, abril 05, 2008

Royal deception*

It would be so cool to be on the British Royal Family because it doesn’t mean a thing, does it? I mean, I’m the Duke of York, ok? What does that mean? (incorporating the character) Alright, I’m the fourth in the line of sucession. I’m never gonna be king! I wouldn’t only have to kill my brother, but also kill my both nephews... that would make it pretty obvious I dit it. Unless... it was a car accident! AND, all three of them happened to be in the same car. And Elizabeth as well! That woman just won’t seem to die. Ok. I’m the King of the United Kingdom! What the hell does it mean? I mean... what do you see when you look into the Queen on a coin, or into me? Andrew, King of England!
In my delusions, you’re right. Fucking Prince Andrew. What’s with the “Prince”, anyway? (back in my own skin) I’d just call him Andrew. Mentioning him, of course, not adressing to him. Unless I was Dutchess of York. In that case, I wouldn’t call him Prince absolutely. Unless he showed up in a sparkly 70s suit, or something.


*false cognates

segunda-feira, junho 04, 2007

Atribuição de Significado¹

Comprei a Cult hoje. Tá, o que me fez tirar a revista da prateleira, de onde estava escondida, foi a chamada "blog é coisa de nerd", ou algo assim. Mas gostei do negócio (pra não dizer "dossiê") do Oscar Wilde com a homossexualidade - afinal um dos únicos livros decentes que li na vida foi O Retrato de Dorian Gray (da Martin Claret, 10 pila, confesso).
Calma, calma. Mudei de assunto. Tinha um texto da MÁRCIA TIBURI ilustrado com uma reprodução do desenho do WALMOR CORRÊA, da sereia Ondina! (para entender: www.revistapontoevirgula.com , de maio e junho). Foi aí que eu comprei - com direito a gritinhos e tudo.
Mas vai, até que a minha semana vai ser cult. Primeiro, porque estou morando sozinha (temporaria-brevemente), e ficar sozinha desperta uma certa áurea cult. Segundo, porque vou no FAM (Festival/Florianópolis/Fórum (?!) Audiovisual Mercosul) todos os dias. Filmes nacionais, da Argentina, Paraguai, Chile, Uruguai... Oras! Tem legenda e é falado em outra língua, que não inglês - é cult. E cinema nacional, às vezes, vende tão mal que é quase cult.
Quando cheguei em casa, vindo do CIC, descobri que não tinha papel higiênico. Fato que me levou ao Manhattan (definitivamente mais cult que o Comper). Como só tinha comido uma empanada de palmito e um chocoleite (nada de cult sobre chocoleite), aproveitei pra comprar um miojo. Galinha Caipira. Cara, miojo é trash - tá ali no limite do cult.
O que não tá nada cult é ficar falando isso no blog - que é coisa de nerd. Ai, deixa eu ir pro meu rodapé de uma vez, que quero assistir Grey's Anatomy e escrever minha matéria sobre a vida&morte do bar de dois surfistas na Lagoa.

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¹. BOURDIEU, Pierre (1996). A ilusão biográfica. In: FERREIRA, Marieta de M. & AMADO, Janaína. Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Are you there?

Adoro essa varanda de madrugada.
02:35
O apartamento com adesivo do Lula acabou de apagar as luzes. O computador fica ligado, com uma foto grande e brilhante. Uma pessoa no lado esquerdo, à direita o que acredito ser um barco.
As luzes do andar acima continuam acesas. No andar seguinte, mas do lado oposto, também.
O bondinho, sorriso de palhaço, passa lento e melancólico. Pára, com os carros que o seguem. Alguém subiu, alguém desceu?
Não encontro agora a sacada onde a pouco pendurou-se mais uma roupa no varal, no prédio gasto mais ao fundo. Foram todos engolidos pela escuridão.
Live music, do cd pirata, se encaixa perfeitamente à visão dos dois rapazes caminhando na Brasil.
Não é figura de linguagem: num rápido desviar de olhos, desaparecem. Você aí, sozinho, não vai fugir. Jogou algo no lixo? Se abaixou para pegar algo? Acompanhei-o até sair do meu alcance.
Quem são as pessoas na varanda à frente? Sim, no “andar acima”, onde as luzes permaneceram.
Motociclistas abastecendo no posto. Brilham o BR amarelo e verde, “Hotel”, “BIS” e o nome de um restaurante que tenho preguiça de forçar os olhos para enxergar.
As pessoas conversam. Não façam isso; apenas sintam a noite.
Lembro das pessoas às quais não preciso dizer uma palavra... Mas não sinto falta. A única coisa que me agrada nessa cidade é a noite. Quieta. Vazia. Interrompida de vez em quando por um carro tocando axé; hoje ainda não.
E elas entraram.
Voyerismo aqui é esporte. Não posso contar as janelas que se voltam para mim.
Passa outro bondinho. Um pouco mais apressado, quase nada. E pára no mesmo lugar; sim, deve ser uma sinaleira. Ninguém subiu, ninguém desceu.
Você não vai desligar esse computador? Pelo menos o monitor!
Os vidros que pretendem fechar a varanda refletem janelas que desconheço. Azulejos e mármores de prédios também. Refletem. E eu espero... não sei o que. A noite aqui sempre me faz esperar.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Rangido de Madeira

Tento, mas não consigo encontrar... o que há de mais belo que uma porteira de fazenda? Tábuas horizontais, das mais diversas formas e cores, uma rara e única escultura. Não há uma porteira igual à outra. E mais único o que estas encerram: lembranças de infância, dias trabalho pesado, tragédias familiares. Tudo que o campo tem de bucólico reflete-se nas fibras da madeira de um portão.
Ah! Que mais preciso além desta estrada uruguaia? A colcha de retalhos que estende-se como estrada, as planícies verdes a perder de vista em qualquer direção que se olhe, delimitadas apenas por estacas envoltas de arame farpado e cuja única conexão com o mundo é uma porteira. De madeira clara, madeira escura. Rústicas, trabalhadas, pintadas de branco, de azul. Fechadas com uma tábua transversal ou com corrente e cadeado. Ah! Minhas preferidas: um dos lados pendendo ligeiramente ao chão, cortando a inquietante simetria. Para mim, elas nem precisam ter significado algum. Sua beleza me impede de fazer reflexões.
Muro? Portão com desenhos e detalhes dourados? Os pequenos barracos no meio do nada, a vida simples, monótona e repetitiva, a pele envelhecida pelo sol, vão rareando e impõem-se no horizonte as casas-grandes dessas senzalas. Grandes casas de campo, com portões grandes e sem simpatia. Logo também as substituem as grandes casas de veraneio, de belas varandas das quais a vista deve ser maravilhosa... Mas sem portão. O que são as memórias de verão se não são guardadas por uma bondosa porteira? Se não há nem a proteção de uma cerca baixa? Ficam mais vivos na mente os cavalos correndo, o cheiro de pasto, o rangido da madeira. Nunca se perde a lembrança de parar para abrir a porteira.
Em meio às tristes e brevemente esquecidas casas, abre-se uma imensidão azul. Quantas histórias não se perderam nessas águas? Ah... afinal, que há de mais belo que o mar?

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Muito prazer, 2007.

Não entendo o que a Martin Claret faz para fazer caber livros em tão poucas páginas. Quem viu a edição deles de Os Sertões, sabe do que falo. Só sei que O Retrato de Dorian Gray tinha 187 páginas, e faltando mais que dez não entendia o que ainda havia por escrever. Ah, sim. Uma breve biografia do autor, encerrara-se a história à 177 (belo número, suponho que seja clara a simpatia que guardo ao 7).
E aí se seguem algumas coisas das quais há tanto não fazia eu: Tirar o marcador do livro (no caso um post-it usado, que serviu bem à função) e mirar as (poucas) páginas percorridas e agora contidas na mente... Como sentira falta! Férias tão mais curtas que a do verão (e outono) passado me proporcionaram dois momentos destes, duas novas histórias e milhares de novos pensamentos, algo que nas primeiras desaprendera.
Apesar de tanto ter mudado, tanto ter aprendido, descoberto e vivido, talvez não tenha eu sido eu esse ano que passou. Não propositalmente. Mas agora vejo que volto a alguns atributos que no passado me fizeram e que, por hora, repreenderam-me as circustâncias. Sinto-me livre, novamente presa a mim mesma.
Aos sete anos, lembro de ter tido um ótimo ano. No seguinte, não sei o que poderia afligir a criança que outrora fui, mas senti falta do número que também guardava-me simpatia e afeição. Lembro de almejar os 70... E alguém disse-me que aguardasse até os 17. O ano que completei 17 foi, de fato, um para ser mantido na memória. Deposito agora no sete a tarefa de, não só em minha idade, mas no calendário cristão, trazer-me sorte.
2007, apresendo-me a criança que hoje sou, a pessoa que volto a ser. A menina sonhadora, que com os outros conversa no silêncio of her solitude, apaixonada pela ilusão. Talvez a pilha de arrependimentos, dúvidas e repreensões que fui não soubesse ler. Mas essa menina sabe... e ela vai carregar consigo seus mais silenciosos e inteligentes amigos. Apresento-me com um sorriso que há tempo o tempo não via.

sábado, dezembro 16, 2006

Onde os carros têm câmbio automático e o chuveiro demora a esquentar.

Não entendo o 102. Ok, riam de mim.
Liguei, pedi o telefone do radio-táxi. A mulher disse para eu aguardar: "Tu-tu-tu". Que droga! Desliguei, liguei de novo. Depois de me mandar aguardar, ela diz "Só com nome e endereço. Tu-tu-tu..." Esperei, nada.

Mochila nas costas, bolsa no ombro; mala numa mão, frasqueira e saco de lixo na outra. Não se engane pela naturalidade com a qual falo da mala, ainda não sei como cheguei com tudo isso até o ponto de táxi. Não tudo, o saco de lixo ficou no subsolo do condomínio. E também não foi sem umas quatro paradas no meio do caminho. Em uma delas, sob a sombra de uma pequena árore de folhagem esparsa, olhei o relógio: 16:15. Havia tempo.

O suor descendo o rosto pelos caminhos que percorrem as lágrimas quando derramam-se, chego ao ponto, onde todos os dias vejo dois ou três carros parados. Agora, nenhum. O peso da mala, carregada no ombro direito na maior parte do caminho, machucara minha perna esquerda. A dor e a agonia da espera não foram uma boa mistura. Os minutos passavam-se, e nada. O ponto já estava cheio de pessoas especulando sobre que meios alternativos poderiam usar para chegar aos seus destinos. Eu não tinha alternativa. Não conseguiria carregar aquela mala mais um metro. Coloquei a perna em uma posição infeliz; as lágrimas disfarçadas percorreram o caminho já molhado pelo suor.

Era 16:45 quando o primeiro táxi chegou. "Você vai pegar ônibus às 17h? Pede pra ele ir pelo túnel, que vai rapidinho!" Se formara um grupo de apoio e torcida no ponto, para que eu chegasse a tempo na rodoviária. Dentro do táxi, tive que pedir para o motorista sair rápido e deixar a senhora que lhe reclamava da demora falando sozinha. Ele quis fazer piadinhas, mas meu mau-humor limitou-me a um sorriso forçado.

"Olha a fila, vou passar por aqui."
"Moço, já pega o dinheiro. Quando eu chegar lá vou sair correndo."
"Qual é a companhia?"
"Reunidas. Alô? Oi, você pode segurar o ônibus para Rio do Sul das 17h? Eu estou entrando na rodoviária!"
"Só um minutinho."

Antes de sair do táxi, o motorista alcançou-me um real que sobrou do valor que lhe paguei.
"Quer ajuda?" - diz o moço sorridente com um carrinho de bagagem.
"Sim. Mas eu preciso correr."

Atravessei o portão A, e lá estava ele. "Florianópolis- Rio do Sul". Ufa. Alcancei a nota de um real que ainda estava em minha mão ao rapaz que ajudou com a mala. Ele olhou para ela, olhou para mim, mas não sei com que expressão.

Após horas de sono, pensamentos e Strokes, as torres iluminadas da igreja erguem-se à minha frente. Vejo, através das ruas transversais, lojas com luzes brancas e coloridas. Um prédio embrulhado de presente, com um gigante laço vermelho; meu deus!

Tanto trabalho para chegar a essa cidade quente, onde não há vento ou praia. Onde os carros têm câmbio automático e o chuveiro demora a esquentar.

domingo, novembro 19, 2006

Beijo da Chuva

A chuva e eu já éramos íntimas. Ela já molhou com seus dedos os meus cabelos, violou minhas proteções para me alcançar obliquamente, entrou em meu apartamento sem bater à porta. Ela esteve comigo consolando-me, embalando-me com sua música tempestuosa.
Nosso relacionamento nunca foi estável, pois nenhuma de nós o é. Já senti saudades suas, olhei para cima esperando que caísse em meus braços. Tantas vezes mandei-a embora quando veio sem avisar, ela me ignorou. Ela já estragou meus planos, já zombei dela quando chegou a mim fraca e melancólica, ela já zombou do meu biquíni.
Mesmo assim, sempre mantivemos esta relação platônica. Imagino-a, forte e voluptuosa como tanto me atrai, nos meus momentos mais românticos. Quero dançar com ela, tê-la envolvendo todo meu corpo. Traí-la em outros braços, sentir sua fúria sobre meus ombros.
Não sabia o que viria deste relacionamento tortuoso, até que ontem meus lábios ela alcançou. Um beijo leve, singelo, verdadeiro. A chuva beijou-me por tão breve segundo que mal pude retribuí-la. Diferente do calor do beijo da boca alheia, que arranca tudo, do ventre ao coração, consome todo interior com sua respiração pesada e arfante, o beijo da chuva não nos tira nada. Só nos enche de frescor, como uma lágrima doce que escorre até os lábios.
Com suas mãos geladas acariciava minha nuca, arrepiava e confortava-me. Fria, ainda assim tenra. Agora eu sei, ela me entende, ela sente o que sinto. Chuva, me acompanha. Vai comigo até aquela porta, bate nela antes de mim. Segura minha mão e me dá uma desculpa para tremê-la. Beija aqueles lábios que não ouso eu tocar.

terça-feira, novembro 14, 2006

Em que andar você mora?

Pouco depois de me mudar para um apartamento, o número três no indicador do andar no qual o elevador se encontra me arrancava um sorriso disfarçado. Não sei por que, mas as pequenas, bobas e óbvias coincidências da vida me deliciam.
Mas então, pela segunda vez, ao fechar minha caixa de correio (sempre vazia), deparei-me com aquelas duas curvas, côncavos para a esquerda, colocadas lado a lado num horizonte imaginário vertical.
Foi assim na terceira, quarta, quinta vez. O "3" me olhava com ar desafiador. Qual o mistério do três, afinal? Mistérios também me deliciam. Mas de mim não tiram sorrisos, e sim um leve levantar da sobrancelha direita.
Cheguei a pensar que todos os outros andares eram apenas uma ilusão, todos moram no terceiro andar! Sempre que segurei a porta do elevador para esperar outra pessoa, depois do "oi" vazio esta levava a mão ao painel, olhava para a luz acesa ao lado do botão "3" e descansava o braço sem tocar em nenhum outro número.
Essa não era uma explicação muito racional, porém. Encontrei eventualmente com um ou outro que dispensava o elevador "moro no primeiro andar, é só um lance de escadas". Está explicado porque o elevador nunca estava parado no primeiro ou no segundo andar. Mas e o quarto? e o quinto?
E foi então que desenvolvi minha tese: cada pessoa mora em um andar compatível com o seu estilo de vida. O andar pode dizer muito sobre o perfil de uma pessoa, e não, não tem nada a ver com numerologia.


Obs: Esta classificação de moradores só se aplica a prédios de 5 andares com elevador. A apuração dos fatos não ocorreu de forma muito ortodoxa, mas não menos que na numerologia.


Perfil 1 (1º e 2º andar): É jovem e não se importa de subir alguns degraus. Não o faz como forma de exercício, e sim como uma atividade óbvia e obrigatória. Esperar o elevador (que tem que descer do terceiro andar, onde logicamente se encontra) demora mais que subir pelas escadas. Mas não é só uma questão de praticidade. Quem se enquadra neste perfil se importa muito com o que os outros pensam e morre de vergonha de entrar no elevador no térreo e apertar o "1". Só o faz ao certificar-se que não há ninguém por perto. Olhando pelo canto do olho esgueira-se para dentro da cabine claustrofóbica e torce para a porta fechar rápido. Depois de chegar ao seu destino não quer deixar nenhuma prova do crime: manda o elevador para outro andar. E aí a aleatoriedade o faz apertar no botão do meio: o curvilíneo "3"

Perfil 2 (4º e 5º andar): Esta área nobre do prédio (com elevador) reune um leque mais amplo de habitantes. Vivem ali desde gordinhos e anoréxicas até esportistas e os ditos "saudáveis". Os primeiros escolhem os andares mais altos para se obrigarem a fazer exercício físico e emagrecer. A tentação do elevador é, para os gordinhos, menor que o medo de exceder o peso máximo - ou que esta possibilidade constrangedora seja insinuada por algum pirralho (que mora no 3º andar). Para as anoréxicas, encarar aquele espelho gigante é impensável. Os esportistas e saudáveis de plantão conhecem a importância e o prazer do exercício físico e querem aproveitar todos os momentos de sua vida para praticá-lo. Nem mesmo quando vêm do supermercado pegam o elevador, afinal suas compras se resumem a alface e bolacha integral.

Perfil 3 (o terceiro andar, twilight zone, terra do nunca...): Aqui moram todos os demais segmentos da sociedade - advogados, viciados em chocolate, pagodeiros, lésbicas, estudantes de farmácia, idosos e pessoas que chegam em casa depois das quatro da manhã. Morando no terceiro andar, essas pessoas poderíam ainda usar as escadas sem maiores desgastes. Porém nunca o fazem, talvez apenas para levar o lixo para fora. Mas neste caso, descem com o lixo pelas escadas e depois voltam para casa de elevador. Sem se importar com o que os outros possam pensar e conformados com seu físico portador de certas "gordurinhas localizadas" e batatas-da-perna com consistência de gelatina, não escondem a preguiça e dominam o uso do elevador. Afinal, o elevador foi feito para os moradores do terceiro andar. Se a gente não usar, quem vai?

domingo, setembro 24, 2006

Superficial

É verdade, não escrevo ficção. Mas também nada que escrevo é auto-biográfico. A realidade é que é tudo uma ficção do real. É uma bipolaridade do eu, um lado que vive, outro lado que escreve. Um lado que ama, sente, sofre... Outro que se aproveita dos sentimentos para criar encadeamentos de palavras que para ele não têm significado algum, talvez.
Mas eu sou os dois, e para mim elas significam. Não significam algo, apenas significam. Pois é isso que palavras fazem. O autor as molda, mas não lhes dá significado. Nem quem as lê. Elas o têm por si sós. Quem escreve e quem lê apenas abstrai o siginificado.
Mas não, ninguém conhece todos seus segredos. Se fosse possível conhecer a fundo a personalidade e o temperamento de cada palavra, se autor e leitor tivessem esse profundo conhecimento, a mensagem seria exata. Um entenderia exatamente o que o outro quis dizer. Domaríamos as palavras. Transformaríam-se em um mero e exato código.
Não, não quero domá-las. Não quero que ninguém o faça. Pois a beleza nas palavras é o ser entendida - jamais compreendida. Por isso o que escrevo não é profundo. É superficial. A verdade por trás das palavras é densa e opaca... Podemos mergulhar de cabeça, mas a tensão superficial não nos deixa passar. Só podemos realmente compreender as palavras quando já estivemos além delas, vivenciamos o que elas deveriam nos dizer. Palavras não são espelhos, mas refletem. E o ser humano adora ver o reflexo de sua própria face.

sábado, setembro 23, 2006

Sorriso

Saio, e sinto meus cabelos a emaranharem-se ao redor de minha face.
Tento detê-los, mas então percebo que só quero deixá-los dançar ao doce sabor do vento...
Vento que atinge meu corpo, este contraíndo-se para não deixar levar o calor.
Sinto. Desvencilho-me de meus braços nus e deixo-me envolver por este frio.
Por uma vez me sinto feliz, e feliz por mim mesma. Sem motivo, sem sentimento. Só sorriso.
Não almejo um etéreo teto estrelado. As luzes da cidade, os faróis e o som dos carros, me afogo em tudo isso e só quero deixar-me embriagar.
Queria caminhar. Queria atravessar a rua, abrir os braços e cantar alto. Então chega o ônibus.
A inércia que um dia teria me aborrecido, agora me diverte. Canto baixinho.
Enquanto caminho novamente ao ritmo do vento, penso em chegar em casa. Solidão. As luzes artificiais que não criam desenhos, apenas enchem e sufocam todo ambiente.
Abro as janelas numa tentativa de trazer para cá o vento, espantar o calor e o conforto. Trazer a rua. Quero apenas a rua.
Mas não, não é o mesmo. A única forma de manter aquele sorriso é escrevendo-o. "Sorriso". Que quem o ler sorria.

quarta-feira, agosto 30, 2006

O penúltimo Romântico

O Romântico não aquele que ama; é aquele que aprecia o romance. Se no amor há romance, ele não sabe. É romântico demais para experimentá-lo. O romance não é o "felizes para sempre". Não vê o Romântico romance em romances que não acabam logo antes do "felizes para sempre". Para sempre é amor, não romance. Romântico compra flores, acende velas e sussurra as palavras perfeitamente ao pé do ouvido, fazendo-as parecer perfeitas, sentindo-as ou não. Mas isto não é romance. Romance é a ansiedade, um quase desistir constante segurado por um frágil fio de esperança platônica e absurda, que afinal se mostra factível. Romance é a perfeição do imperfeito. Não vivem romance apenas os Românticos. Mas são românticos enquanto o vivem, por mais que o tentem esconder do mundo, aparentemente tão frio, mas afinal tão repleto de um romantismo latente e incompreendido. Talvez essa latência exista em cada um. Ou talvez o Romântico seja apenas um estoque inesgotável de romances latentes, esperando o cruzar de olhares para desabrochar. Mas às vezes o Romântico vive em uma vida um só romance. Ou nenhum. Dóem os romances latentes que não encontram braços para desfazerem-se. E dói quando o romance acaba e os braços não afrouxam. A borboleta que sai do casulo quer voar, e deixar uma pequena larva a consumir o romance de outros braços... O romântico é, então, uma borboleta. Frágil, mas ao mesmo tempo livre. Romântica, mas ao mesmo tempo efêmera.